14/10/2010

Editorial da Carta Maior

BATINAS, FÉ, GOLPE E MÍDIA

O primeiro programa da televisão brasileira em rede nacional --com o suporte técnico fornecido desde Washington-- foi uma missa celebrada por padre Patrick Peyton, no início de 1964. Quem era o padre Peyton, merecedor de tal distinção?

Na preparação do golpe de 1964, era preciso excitar os instintos do medo e canalizá-los contra 'o comunismo ateu' representado pelo governo João Goulart. Nada melhor para isso do que servir-se da religiosidade popular, para o que esteve sempre disponível a obsequiosa genuflexão de uma parte da cúpula da Igreja cuja união carnal com os poderosos precedia a comunhão com Cristo.


Nesse intercurso da fé com o dinheiro e a truculência, a CIA despachou para o Brasil o padre Patrick Peyton, um irlandês naturalizado estadunidense, conhecido como o padre das "estrelas", por gostar de aparecer ao lado das celebridades de Hollywood. 

Peyton veio promover a "Cruzada pelo Rosário em Família". 

Seus encontros convocados pela mídia arrastavam milhares de pessoas, em especial mulheres, para uma pregação que consistia em alertar 'a família' contra os perigos de um governo contrário aos EUA e que representava uma ameaça comunista à religião, à tradição e aos bons costumes. A política era apenas o subtexto. O resto da história é conhecido. 

Pavimentado o espírito e a fé, o golpe de 1964 contou com o engajamento militante de batinas anticomunistas tendo como ponto alto a atuação de Dom Antônio de Castro Mayer, bispo de Campos (RJ) e de Geraldo de Proença Sigaud, arcebispo de Diamantina (MG). 

Na marcha que recebeu os militares golpistas no Rio de Janeiro, em 2 de abril de 1964, mulheres representantes da tradicional família brasileira, seguindo o lema de Patrick Peyton, estenderam seus rosários em oração agradecida à Igreja Católica pelo papel precursor na instalação de uma nova ditadura na América Latina"


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