20/02/2009

Diário de Bordo - Cap. II

Por Miriam de Salles Oliveira da Rocha

Para passar o tempo inventei fazer um vatapá á baiana para variar o cardápio de bordo, No Mercado Modelo compramos os ingredientes e fui para a cozinha que parece cozinha de convento.Ampla , arejada e bem abastecida;não há o que não haja.,agraciada com vista para o mar,é claro.. . Viajando mundo afora, parando em muitos portos,acha-se de tudo para comprar.
: especiarias da Índia e da China, deliciosos molhos italianos, peixes esquisitos e saborosos, uma profusão de legumes e verduras. Toma-se muito chá nos navios com tripulação oriental. E come-se muito peixe,
Saímos um pouco depois das 15hs, ainda chovia, encobrindo a beleza da Bahia de Todos os Santos. Chamei por todos eles, ia precisar. Francis e eu assistimos as manobras de desatracação do deck. Observávamos os movimentos precisos do prático ;achei interessante o modo que ele deixou o navio; Pela proa; passando perigosamente para a sua lanchinha em pleno mar agitado; para mim um dos 12 trabalhos de Hércules. Pelo possante binóculo de bordo pude ver o rosto querido de Raul; percebi uma sombra de saudade. Eu olhava a imensidão do mar,; com o coração apertado, lembrei-me de casa. Passávamos por Guarajuba; Ao longe, vejo os coqueiros na costa. Céu encoberto. O navio, muito pesado, balança pouco,


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Estou instalada na melhor cabina do navio, depois da do Capitão. È o camarote do armador. São três cômodos: sala,e quarto acarpetados banheiro simples, mas, confortável. Um sólido mobiliário, porém sem luxos. Tenho uma geladeira, armários, uma escrivaninha com telefone e lâmpada de leitura, um sofá de três lugares, mesa para refeição e uma visão panorâmica para o infinito. Dentro da cabina a temperatura é constante, 22 graus, O quarto de dormir é confortável, com dois beliches de navegação, uma pequena cômoda e armários para guardar roupas, Tudo com vista para o mar,... E tome mar, para todo lado que se olhe.


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No banheiro encontrei toalhas, sabonete, copos, escova, e pasta, tudo prontinho para mim, Uma vasta pia antiga, um vaso anatômico, e um chuveiro bem forte, como eu gosto, com água fria e quente,
O navio tem piscina, alimentada com água do mar constantemente renovada, Sala de ginástica, sala de TV.com um aparelho de 29 polegadas, diversas salas de refeições, os camarotes dos oficiais e o alojamento da tripulação.
O jantar é servido por volta das 17hs, sempre começando com sopa de peixe, de aparência insossa, pelo menos para mim, que não gosto de peixe e odeio comida branca; mas o comandante é adepto da comida naturalista, embora o resto do cardápio seja agradável e variado. Mas, invariavelmente, começa com sopa de peixe e termina com chá; é notória a influencia oriental no cardápio.
A cabina de comando é espaçosa e ultramoderna, Dali controla-se todo o navio, Pelo radar, sabe-se tudo o que se passa á nossa volta, sobre as águas, no fundo do mar, a chegada de tufões ou furacões, as chuvas, os navios próximos, as estrelas verdadeiras que nos espiam desde o começo dos tempos, até os satélites artificiais criados pelo homem, Não é confortável imaginar que estes Big Brothers, russos ou americanos, estão nos espiando a todo o momento. Um navio deste porte é hoje todo controlado por computadores e necessita apenas de uma tripulação de 20 homens para controlá-lo, O comandante é o todo poderoso dentro do seu navio; tem sempre a última palavra, Antigamente até podia realizar casamentos, mas esta faceta de perigo das viagens marítimas já foi eliminada. Também é atribuição do comandante aceitar ou recusar passageiros. Determinar a escala de trabalho e a folga da tripulação e oficiais e pagar-lhes o salário. Mas, sua responsabilidade é imensa sobre tudo a que acontece á bordo, Tem que ser um cara sereno e capaz de tomar decisões rápidas, A carga do navio e todas aquelas vidas dependem da sua competência. René Ortega, capitão do Zim, era um homem tranqüilo, sóbrio, muito competente e respeitado, Filipino da Ilha de Mindanao, tinha um tipo ascético e não aparentava a idade que tinha,aliás,um segredo de Estado; imagino que já fosse sessentão.
O Primeiro Oficial (o First), è responsável pelo convés, carga e descarga ;também substitui o capitão quando é preciso,


Nos navios modernos não existe mais a figura do sparks. O telegrafista, substituído pela tecnologia, Raul diz que hoje não há mais navegadores, mas, técnicos. Barra pesada devia enfrentar os marinheiros de antanho, guiando-se pelas estrelas. Lutando contra o Mar Tenebroso, com seus aparelhos rudimentares, bússola e astrolábio, Assim mesmo realizaram grandes feitos cheios de garra e coragem. Fitando o Cruzeiro Do Sul, na noite quieta e estrelada, fiquei pensando em quantos pares de olhos fitaram este mesmo céu impassível, temendo pelo seu destino. ”Homens do mar oh! rudes marinheiros, tostados pelo sol dos quatro mundos; já cantava o poeta.

http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=15061&cat=Contos&vinda=S

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